para maiores de 18 anos

9
maio 2014

Minha primeira vez no urologista

 
publicado em: sexo
por: Julieta Jacob
 

Recebi o relato de um leitor contando como foi a sua experiência no urologista, mais especificamente para fazer um exame chamado peniscopia (para identificar possíveis lesões causadas pelo vírus do HPV, comum entre homens e mulheres). Esse exame é o equivalente ao papanicolau da mulher e pode ser feito anualmente de forma preventiva. Mas a gente sabe que os homens, em geral, farrapam no cuidado com o pênis. Seja por falta de informação ou descuido. Inclusive esse leitor conta que a sua primeira consulta ao urologista foi aos 30 anos, muito tempo depois de iniciar a vida sexual. Antes disso, ele só tinha visitado o uro aos dois anos de idade, levado pela mãe.

Decidi publicar o relato dele como forma de incentivar outros homens a cuidarem da saúde do seu pênis indo a um urologista. Ainda existe muito tabu e mito sobre esse assunto. E, infelizmente, ainda tem gente que não vai ao médico por puro machismo e preconceito diante da possibilidade de ser tocado (leia-se examinado) nas partes íntimas por um homem. E assim aumentam as doenças sexualmente transmissíveis, os casos de câncer de pênis, etc.

Outro aspecto importante de se notar é a abordagem do médico urologista. Essa parte é verdadeira:  poucos têm alguma formação em sexualidade, pois esse assunto está fora das faculdades de Medicina. Por isso, muitos profissionais tendem a ter uma postura de “machões”, pressupondo que o paciente é heterossexual e “pegador” de muita mulher. Sabemos que essa postura não é adequada e que afasta sobretudo os homossexuais dos consultórios, por se sentirem constrangidos de falar sobre sua orientação sexual com o médico.

Espero que gostem!

Ilustração: Keith Haring

Ilustração: Keith Haring

Incentivado por minha noiva, fui fazer minha primeira peniscopia. Na verdade, nem sabia da existência desse exame, dito “preventivo masculino”. Desde que começamos a nos relacionar, fazemos exames anualmente para DSTs e tudo aquilo que se faz de praxe quando se tira sangue. Ouvi, não lembro onde, que esses exames seriam “exames pré-nupciais”. Mesmo antes de saber dessa nomenclatura, sempre achei importante um casal (hetero, homossexual, etc), que está começando a se relacionar, fazer isso em sinal de respeito, amor e confiança. Engraçado que, apesar de achar importante, nunca tinha feito antes com esse propósito. É algo bom, pois só fortalece a relação. Recomendo!

Voltando à peniscopia… esse exame foi passado na minha primeira visita a um urologista. A primeira visita depois que fiz minha fimose aos dois anos de idade kkk. Era um jovem urologista. Diziam-me que os urologistas são tradicionalmente conservadores e até machistas por tratarem de pacientes homens. Convenhamos, em nossa sociedade (e ainda mais no NE), eles são sim, na grande maioria, conservadores e machistas. Mas esse meu encontro com o jovem urologista foi super tranquilo, nada com esse “ranço” tradicional. Feita a consulta, liguei para marcar a peniscopia com outro médico.

Detalhe: no telefone, a secretária falava comigo normalmente, perguntando meu nome, plano de saúde, etc, mas quando chegou a parte: “o senhor não pode ter relações sexuais três dias antes do exame, não pode usar nenhum tipo de pomada e tem que aparar os pelos pubianos”, ela falou bem baixinho, quase cochichando kkk. Não entendi aquela “frescura” (bobagem mesmo, não é?! Qual o problema, era um consultório de urologia, tudo a ver com penis, relação sexual e pelos pubianos!), mas entendi que ela estava sendo discreta (sem necessidade). Aí, só de sacanagem, eu disse que não tinha escutado e pedi para repetir mais alto.

Fui ao hospital tranquilo, sem nóia nenhuma, sem expectativas, só sabendo que iriam “manusear” o meu pênis. Cheguei lá, esperei meia hora e fui chamado ao consultório. Quem me chamou e me acompanhou foi uma moça de no máximo 30 anos, extremamente séria e tranquila. Até então eu não tinha noção de como era o procedimento. Poderia ser um homem no lugar da moça, para mim não teria problema, mas esse mundo masculino machista e conservador talvez explicasse um pouco a “moça”…

Ao chegar na porta do consultório sou recebido (agora sim!) por um urologista mais velho, deveria ter seus 50 e tantos anos, com um sorriso maroto/simpático/escroto no rosto. Já gostei do cara e já previa o que viria pela frente. Uma vez nós três (eu, a moça e o urologista) dentro do consultório, o médico começou (com um papel na mão):  “então você é o fulano de tal”. Perguntou meu nome e o motivo por que estava lá. “Ah, então o senhor veio aqui para seu exame preventivo”. E emendou: “o senhor tem uma parceira ou mais de uma?”. Já falei de pronto que tenho uma parceira exclusiva, e ele: “Não tá pegando muita gente na rua aí não!?”, com, novamente, seu sorriso maroto/simpático/escroto. Agora sim! Esse é o verdadeiro urologista de que tanto falavam! Respondi que não e pensando ao mesmo tempo: rapaz, se eu fosse gay… como seriam as perguntas? Será que ele notaria, seria mais sério, sei lá? “Pois tire sua calça que a moça vai lhe preparar”. E se retirou da sala de exame.

A moça continuava super séria, tranquila, e eu pensava: ela deve ouvir tanta gracinha de caba safado por aqui… mas talvez seja preconceito meu, pois também deve ter aqueles que, como eu, ficam numa mistura de tranquilidade/constrangimento, quieto, calado. E ela começou a cobrir meu pênis e saco escrotal, vulgo ovo, com muitas gases. Obviamente ela teve que tocar e tal. Até aí tranquilo. Eu gargalhei por dentro quando ela pegou uma última gase, enrolou tipo um cordão e literalmente amarrou meu pau dando umas três voltas kkk. Depois dessa, não pude pensar outra coisa: meu Deus, será que tem cara que fica de pau duro nessa hora? E, para finalizar, ela se aproxima novamente com uma garrafa na mão avisando: “isso aqui é um ácido para o exame”. Eu comigo: “ácido??!!”. E tome borrifada. Um gelo! E um fedor do cacete de vinagre. Agora pronto, se o cara ficar de pau duro assim é um doente kkk.

Como se estivessem perfeitamente sincronizados, logo após as borrifadas, entra novamente o urologista do sorriso maroto/simpático/escroto no rosto. Senta na sua cadeira, descreve o que vai fazer e antes de começar a examinar fala: esse líquido que a moça colocou aqui é o vulgo vinagre. Como eu não tava dando muita bola para as tentativas de escrotices dele, apesar de ter gostado do seu jeito, o exame foi bem formal, rápido e, graças a Deus, meu pênis foi aprovado! Não sem uma última pérola para coroar minha primeira vez: depois de digitar o resultado e assinar, me entregando o exame, ele fala: “tudo certo, velho… até agora… depois eu não garanto…”, com aquele sorriso maroto/simpático/ e com o grau máximo de escrotice no rosto como querendo me dizer: “to ligado que tu vais pegar muita mulher por aí… cuidado!”.

Foi uma primeira vez massa, sem traumas, sem frescuras. A primeira de várias. 

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6
maio 2014

Mãe sempre sabe?

 
publicado em: LGBT
por: Julieta Jacob
 

Há um ditado famoso que diz: “coração de mãe sabe tudo”. Geralmente ele é citado quando se quer provar que o sexto sentido materno é infalível. Mas será que é mesmo? Será, por exemplo, que todas as mães percebem que seus filhos são gays antes que eles se revelem a elas? Ou será que a maioria delas até percebe, mas finge que não sabe?

O pessoal do “Põe da Roda” entrevistou algumas mães de homossexuais para mostrar que não há unanimidade. E que nem tudo é tão óbvio quanto parece. Um dos trechos mais legais que eu achei é a parte em que uma mãe responde: – “O melhor de ter um filho gay? Eu deixei de ser preconceituosa”.

Mamães e futuras mamães, vejam esse vídeo! Vale para os papais também.

httpv://youtu.be/51szJQIwumw

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5
maio 2014

Os tabus só atrapalham o sexo

 
por: Julieta Jacob
 

Sabe aquela história de que tamanho é documento, que homem que sente prazer na região anal é necessariamente homossexual, que mulher que gosta de sexo é prostituta e que falar sobre sexo é pecado? Pois bem, tudo isso são tabus criados pela sociedade patriarcal (da qual resultamos) e que até hoje só servem para atrapalhar o nosso prazer (principalmente o das mulheres, mas os homens também sofrem com as interdições e preconceitos amplamente difundidos).

Esses tabus foram o tema do debate na Rádio JC News, do qual participaram, além de mim, a sexóloga Silvana Melo e o empresário do ramo de sex shop, Daniel Tombesi. Também conversamos sobre o mercado de produtos eróticos, que está em ascensão no Recife.

A conversa foi muito legal! Para ouvir o debate completo, basta clicar AQUI.

image (4)

Da esq. para a dir.: Silvana Melo, Daniel Tombesi, eu e o apresentador Everson Teixeira.

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25
abr 2014

Educação sexual na Constituição de Pernambuco

 
publicado em: educação sexual
por: Julieta Jacob
 

Andei estudando a Constituição de Pernambuco e,  já no finalzinho, tive uma ótima surpresa! Está lá, no Título VII (Da Ordem Social), Capítulo II, Seção I (Da Educação), artigo 196, o trecho que reproduzo abaixo (com grifos em amarelo):

image (3)Conclusão: a Constituição de Pernambuco estabelece que conhecimentos acerca de educação sexual devem fazer parte das atividades curriculares das escolas (públicas e particulares). Isso é muito legal, sabe o porquê? É que no âmbito federal, os Parâmetros Curriculares Nacionais já recomendam que a sexualidade seja abordada em sala de aula como tema transversal. Inclusive existe uma cartilha editada pelo Ministério da Educação que orienta educadores sobre como abordar alguns temas em sala de aula. Vale a pena ler (são vários volumes).

Alguns trechos que extraí da cartilha:

“A sexualidade tem grande importância no desenvolvimento e na vida psíquica das pessoas, pois independentemente da potencialidade reprodutiva, relaciona-se com a busca do prazer, necessidade fundamental dos seres humanos”.

“A discussão sobre a inclusão da temática da sexualidade no currículo das escolas de primeiro e segundo graus tem se intensificado a partir da década de 70, por ser considerada importante na formação global do indivíduo.” Leia mais aqui.

O fato de a Constituição de Pernambuco trazer a educação sexual como essencial em sala de aula só reforça a importância desse trabalho e o papel da escola como preponderante. Afinal, ao contrário do que muitos pensam, educação sexual não tem nada a ver com incentivo à sexualidade. Pelo contrário: alunos que têm acesso a informações corretas e adequadas tendem a iniciar a vida sexual mais tarde e a praticar sexo seguro. Não é maravilhoso?

Só que da teoria para a prática há uma distância enorme, e sabe-se que uma lei não cumprida não passa de uma mera folha de papel. Portanto, é importante que a gente faça pressão para que as escolas cumpram o que estabelece a Constituição (não só em PE, mas em todo o país).

Eu lhes pergunto: existe alguma abordagem sobre educação sexual na escola do seu filho(a)? Você já se interessou em perguntar à diretora como a escola se posiciona em relação a esses assuntos? Seria legal investigar, o que acham? Não se esqueça: educação sexual é um tema essencial na formação das crianças, assim como outros assuntos abordados em sala de aula. Mãos à obra!

 

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23
abr 2014

Curso debate casamento, sexualidade e amor

 
publicado em: educação sexual
por: Julieta Jacob
 

Boa notícia! Um curso abordando diferentes aspectos da sexualidade será oferecido aqui em Recife. Será um colóquio em quatro encontros, cada um com um tema diferente. Adoro cursos nesse formato (bem objetivos e de curta duração) e cheguei a fazer um similiar – e muito legal – com Regina Navarro Lins na Casa do Saber, em São Paulo. Foram quatro dias de muitas reflexões super interessantes! Espero, do fundo do coração, que mais cursos com essa abordagem cheguem à cidade!

Foto: Flickr (creative commons - Jiunn Kang Too)

Foto: Flickr (creative commons – Jiunn Kang Too)

O curso que está sendo oferecido pelo espaço 3 e meio, aqui em Recife, será ministrado por Fernando Calsavara, psicólogo e fundador do Círculo Psicanalítico de Pernambuco. Serão quatro encontros (dias 08, 15, 22 e 29 de maio) e entre os tópicos a serem abordados estão:

– Amor livre, namorar ou ficar?

– Amor no casamento, na separação ou na solteirice.

– Amor e sexo entre homem/ mulher, mulher/mulher e homem/homem.

– Afinal, como conviver integrando amor, paixão, desejo e sexo?

Legal, hein?

O primeiro encontro será no dia 08 de maio e as inscrições já estão abertas. Clique aqui para mais informações sobre o valor e a forma de pagamento.

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16
abr 2014

O universo contado pelas crianças

 
por: Julieta Jacob
 

O mundo das crianças é mesmo incrível! Imaginação e criatividade parecem ilimitadas. É muito lindo ver como esses pequenos seres constroem a lógica que organiza as suas ideias. Quando se trata de assuntos ligados a sexualidade, aí é uma maravilha. Amo escutar as teses infantis! Tanta pureza, tanta beleza! Semana passada minha sobrinha, Clara, me disse que os bebês podiam nascer de duas formas: pela barriga e pela “portinha”. Segundo ela, essa tal porta fica no “pipiu” da mulher. E ela me garantiu que vai ter 14 filhos e que todos nascerão pela “portinha”. Viva o parto normal!

Sabendo que teria um farto (e incrível)  material, o poeta colombiano Javier Naranjo decidiu perguntar a crianças o significado de algumas palavras. Depois ele reuniu todas as respostas no livro que chamou de “Casa das Estrelas – o universo contado pelas crianças”. Tive a chance de ver este livro rapidamente e procurei logo “sexo” e “amor”. Fotografei as páginas para vocês darem uma olhada. É ou não é incrível?

 

image (1)

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14
abr 2014

#EUAMOASSIM >> Tarsila Prado

 
publicado em: amor
por: Julieta Jacob
 

Oi, pessoal! Quanto tempo! Volto trazendo um vídeo novo, que faz parte da série #EUAMOASSIM. É bem simples: eu acredito que o amor faz parte de um processo de aprendizagem (Clarice Lispector descreve lindamente o que quero dizer no livro Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres). Daí perguntei a algumas pessoas “como é que você ama?”. E as respostas você confere nos vídeos que postarei aqui.

Quem estreia é Tarsila Prado, cuja história é retrada no documentário Garotas da Moda, de Tuca Siqueira. Aliás, as três primeiras entrevistas são com participantes do grupo.

httpv://youtu.be/63VeJdzW7nY

Gostaram? Se você quiser me contar a sua forma de amar, pode enviar inbox para julieta@erosdita.com. Vou adorar saber!

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9
fev 2014

Uma questão de escolha

 
por: Julieta Jacob
 

O título deste post é também o título da entrevista que eu dei para a Revista Continente deste mês. A edição inteira está linda e é toda dedicada ao Amor (leia aqui). Eu falei sobre a escolha entre o amor romântico e outras formas de relacionamento, como por exemplo o poliamor. Abaixo reproduzo apenas a primeira pergunta. Para ler a entrevista completa, clique aqui.

Adoraria saber o que vocês pensam sobre o assunto. Boa leitura.

Screen shot 2014-02-09 at 9.25.41 PM

 

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29
jan 2014

Uma menina, por favor

 
publicado em: amor
por: Julieta Jacob
 

Conversando com minha sobrinha:

– Clara, se você tiver uma irmãzinha, como vai ser o nome dela?

– Gabriela!

– E se for um irmãozinho?

– Hum… se for um irmãozinho a gente devolve!

Clara tem apenas quatro anos. Não sabe sequer de onde vêm os bebês. Talvez ela pense que a gente escolhe numa enorme prateleira, como na loja de brinquedos. “Moço, eu quero aquela menina risonha de cabelos cacheados, por favor.  Tá em promoção?”.

Como deu para perceber, Clara quer ter uma irmã e não um irmão. No mundo infantil dela, caso o bebê seja menino, zero bronca: é só ir na loja e devolver o produto. Se tiver selo de troca, melhor ainda.

Por incrível que pareça, alguns adultos pensam como Clara. Sabem que não é possível escolher o sexo do bebê como quem escolhe uma boneca, mas arriscam a gravidez na esperança  de ter preferencialmente uma menina ou um menino.

Screen shot 2014-01-29 at 11.52.42 AM

Foto: Flickr | creative commons – Marie Smith

Eu estava na fila de uma loja de departamento, quando notei que a mulher à minha frente estava passando mal. Suava frio, passava a mão na testa, se abanava, puxava o ar pela boca com dificuldade. Observei-a e vi que ela estava grávida. Um barrigão de cinco pra seis meses. Falei com ela:

– Moça, você não parece bem. Quer se sentar um pouco? Quer um copo d’água?

E ela:

– Não, não, de jeito nenhum. Eu realmente estou um pouco nervosa, mas é por um bom motivo. Vim agora do médico e acabei de descobrir que estou grávida de uma menina!

– Parabéns! Bom, então suponho que você deveria estar contente. Qual o motivo do nervosismo?

– É que eu queria muito uma menina. Muito mesmo. Já tenho um filho de onze anos e meu sonho era ser mãe de menina. Na primeira ultrassom que eu fiz, o médico não conseguiu identificar o sexo porque a bebê tava com a perna cruzada. Mas dessa vez graças a Deus ele conseguiu.

Nisso chega uma senhora com as mãos recheadas de meias, lacinhos, vestidinhos e chupetas: tudo cor de rosa. Percebi que era a mãe da mulher grávida. Ao ouvir a nossa conversa, ela já emendou, toda orgulhosa:

– Ah, minha filha, isso tudo aqui (mostrando os produtos do enxoval) é para a minha neta Maria Fernanda, o amor de vovó. Eu já tinha dito à minha filha: “não me venha com outro menino porque eu não gosto. Eu só gosto de criar meninas. Colocar lacinho, vestido… menino é muito sem graça. Ajudei a criar o meu neto de 11 anos, mas tenho que admitir que criar menino não me dá prazer. Quando ela me falou que estava grávida eu lhe disse, não disse? (e olhando para a filha, que confirmava com a cabeça): dessa vez eu só ajudo a criar se for uma menina. E graças a Deus minha Maria Fernanda chega já.

Percebi que a grávida se abanava mais e mais. Parecia que a suadeira estava pior, que ela estava ainda mais nervosa. Achei que ela fosse desmaiar. Aproximei-me dela, enquanto a avó estava ocupada passando as compras no caixa.

– Não entendo o seu nervosismo. Afinal, você está grávida de uma menina, como desejou. Está tudo certo! Por que não consegue relaxar?

Com os olhos lacrimejantes, quase tremendo, ela respondeu:

– É que eu tenho medo que o médico tenha se enganado. E se meu bebê for um menino? Já pensou?

Entendi. A grávida estava paranoica diante da pressão que sofreu da mãe.

“Já pensou?”. Eu repetia a pergunta mentalmente. Clara teria respondido, na sua sabedoria e simplicidade infantil:

– “Ah, se for menino você devolve!”.

Apenas sorri, desejei boa sorte e me despedi desejando saúde para a criança e um parto tranquilo.

Se eu já pensei? Pensei. Mas falo sobre isso em outro post. E você, o que pensa?

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14
jan 2014

Dúvida sobre sexo na aula de História

 
publicado em: educação sexual
por: Julieta Jacob
 

Uma colega minha é professora na rede pública do Recife. Certo dia, durante uma aula sobre a Revolução Industrial, ela perguntou aos alunos:
– Alguma dúvida?
Um deles, o mais bagunceiro por sinal, prontamente levantou a mão:
– Professora, o que é sexo oral?
A turma, que estava extremamente agitada (quem ensina a pré-adolescentes sabe do que estou falando), silenciou diante daquela pergunta inusitada – e inadequada para uma aula de História. O clima de suspense para ver a reação da professora durou alguns longos segundos.
Minha colega, após processar rápidas sinapses para decidir como agir naquele momento, respondeu:
– Sexo oral é quando o homem ou a mulher, adultos, tocam o órgão sexual de outra pessoa com a boca. Podem lamber ou beijar.
Simples assim e de uma tacada só. Sem constrangimentos ou subterfúgios.
O aluno, percebendo a firmeza e a naturalidade da professora, emendou:
– É isso aí, professora. E não é que a senhora sabe mesmo?
Todos riram.
Agora podemos voltar para a nossa aula de História?
– Agora sim, consentiu o aluno, satisfeito com a resposta que tivera.
Como num passe de mágica, o aluno antes desconcentrado, passou o restante da aula mais silencioso e atento à explicação. O comportamento dele, dali por diante, passou a ser mais calmo e mais colaborativo.
Ao relatar o episódio para a direção da escola, no entanto, a minha colega foi severamente repreendida.
– Você não tinha nada que falar sobre “esses assuntos” com os alunos. Que isso não se repita! – advertiu a diretora em tom de ameaça.

foto (2)

Conversando comigo, a minha colega, que não tem preparação alguma sobre educação sexual, disse que agiu intuitivamente, pois já havia tentando por diversas vezes ao longo do semestre – sem sucesso – fazer com que aquele aluno prestasse atenção às aulas. Mas não tinha jeito. Ele continuava disperso, inquieto e perturbador. A pergunta sobre sexo oral havia sido a única vez que o aluno “participou” da aula. Ao se ver diante do questionamento, minha colega viu também a oportunidade de sanar aquela dúvida e ainda conquistar a confiança do aluno.

Na minha avaliação, ela foi impecável. Aliviou aquela tensão de forma leve e objetiva e manteve as rédeas da aula, convidando todos a voltarem a ela tão logo a pergunta fora respondida. Afinal, apesar de ela ter explicado o que é sexo oral, a aula continuava sendo de História.

Professores e educadores estão sujeitos a passar por situações como essa. Sabe-se que, na maioria dos casos, os alunos não têm com quem conversar sobre sexo e sexualidade e, por isso, acabam pedindo ajuda a professores na escola. Como não há a figura do “educador sexual”, eles acabam recorrendo a quem lhes pareça mais receptivo. Em casa, muitos pais são silenciosos ou mesmo omissos. Na escola, predomina o medo de abordar tais assuntos para que não soe como incentivo a uma prática sexual precoce. Vale salientar, a propósito, que o que ocorre é exatamente o oposto. Crianças com acesso a educação sexual tendem a iniciar a vida sexual mais tarde (já na fase adulta, como deve ser) e, percentualmente, usam mais camisinha na primeira relação do que crianças sem acesso a educação sexual, pois conhecem seus benefícios e também os riscos do sexo desprotegido.

A orientação aos educadores, quando se virem desafiado por uma pergunta “fora de hora” como a que recebeu minha colega (obs: não existe pergunta fora de hora. Cada dúvida deve ser levada em consideração no exato momento em que ela surge, sobretudo no âmbito da sexualidade, onde a maior parte do conhecimento é negligenciada) é respirar fundo (se preciso for) e agir com naturalidade. Caso o profissional não se sinta capacitado a responder à pergunta naquele momento, ele deve sugerir”podemos conversar sobre esse assunto em outra oportunidade?”. E, claro, depois de se informar, o professor deve MESMO voltar a abordar a questão, conforme o prometido. É melhor agir assim do que mentir ou inventar uma resposta. E muito menos repreender o aluno como se o fato de fazer uma pergunta sobre sexo ou sexualidade fosse uma falta grave ou motivo de vergonha.

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